quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Quem está ao meu lado na rua?

Por Andrea Garbim

Local da cena:

Rua Itapeva. Região da Paulista - onde há grande circulação de 'pessoas cheirosas por fora e fedidas por dentro'. Tô na luta. Na correria. Há uns 10 dias esqueci meus documentos num consultório médico. Não tinha me tocado. Não tinha notado. Mas, andando pelas ruas, eu sempre noto quem está do meu lado.

Os personagens: 

Os PMs, eu, a pedestre, o garoto humilde e a namoradinha.

Ainda na cena: 

Tudo muito rápido, questão de segundos, enquanto eu voltava para o metrô Trianon, o garoto humilde (de bermuda desbotada e camisa furada) descia a Itapeva com a moto quebrada. Na hora pensei: que azar, a moto quebrar bem aqui. Em questão de segundos, vejo a viatura dar uma ré INACREDITÁVEL - quase atropelou a pedestre que atravessava no SINAL VERDE pra ela. Deram a ré e aquele movimento: três PMs saem da viatura, todos com a arma na mão e num flash, no segundo mais inacreditável, viram o garoto humilde dando um beijo na boca da sua namoradinha. Ela segurava alguns exames na mão. Ela abraçava o garoto humilde. Não houve abordagem. Não houve revista.

Eu parei na calçada por alguns segundos.... 

Dois dos PMs, que saíram apontando a arma, eram mulheres. Elas rapidamente diziam uma para a outra: "não é nada não", "não é nada não". O PM motorista que quase atropelou a pedestre (na hora da ré) nem desculpas pediu para a moça (que também já nem estava mais ali). Talvez, na hora da "missão" ele nem tenha se dado conta de que quase feriu alguém por um "engano".

Fiz questão de continuar olhando o garoto humilde com a moto quebrada e a sua namoradinha - que deveria estar atrasada para o trabalho. Os beijos eram bem rápidos (rsss) me parece que ela deu alguma notícia para ele...

Só que depois de refletir sobre o que tinha acabado de acontecer, meu peito apertou: o garoto humilde sequer NOTOU que, em SEGUNDOS, enquanto ele descia a Itapeva com a moto quebrada para buscar a namoradinha, TRÊS ARMAS foram apontadas para ele e pelas costas.

E eu, na cena, agradeci a Deus por ter tido a honra de morar na periferia desde os meus 11 anos de idade. Isso me deu a oportunidade de olhar para as pessoas pobres e humildes e não fazer qualquer tipo de "julgamento". E também não estou aqui fazendo um relato ou julgando a ação dos PMs. Eles estavam a trabalho. Se eu fosse um PM talvez também teria errado. Me coloco no lugar do outro, sempre que possível. Imagina o veneno que deve ser viver esse “dia-a-dia-mundo-cão”. Não gosto nem de pensar.

E não dá pra negar a nossa realidade: a injustiça cravada no seio do mundo. Descriminação. Dúvida sobre quem é quem na sociedade. Quem está do meu lado na rua?
Talvez esse seria o nome da peça: “Quem está ao meu lado na rua”?

Um comentário:

Folha Noroeste disse...

ótima reflexão.Parabéns pelo texto e pelo olhar 'atento'...